sábado, 25 de setembro de 2010

Rolando os dados

20 de setembro .To indo.Dou tchau para tio, mãe e avo, algumas lagrimas descem, mas estou tranqüilo, calmo, ali mesmo no saguão começo um papo.Uma brasileira que vive em Madri a 24 anos, destino do meu primeiro vôo,  indo ao reencontro dos filhos, um deles ator,depois de rápidos três dias no Brasil.Toca meu telefone.Rafa o único que me ligou nesse tempo, recebi mensagens, carinho.Forma-se a fila para o embargue, conheço Alessandra, brasileira, residente no Porto, segundo destino do meu segundo vôo. Pronto já não preciso ficar com duvidas para achar o portão de embargue em Madri. O avião vôo 6024, sento ao lado de uma alemã conversamos um pouco, mas logo pego no sono.Acordo. Janto. Ouço The Bird and the Bee lembro, Nathalia, Thiago e David.Mais algumas horas de vôo e já ta na hora de ler a carta da Suzana, estou no meio do oceano, mas nada vejo tudo muito escuro. Leio. Releio. Sem choro. Tranqüilo. Rezo e agradeço a todos os meus amigos, todos mesmo. Mas meia hora chego em Madri,21 de setembro, desço do avião já na companhia de Alessandra e sua filha Eduarda.Fila.Apresento passaporte, carta convite da ONG e ouço : “ Você tem que passar por um entrevista” diz o policial com sotaque espanhol “Ali na sala de esquina” e la vou eu, tranqüilo, seguro, documentos em dia e pronto chego a tal sala de “esquina”. Sou atendido por uma louca, típica personagem de qualquer filme do Almodóvar.Descabelada.Ruiva.Ouvindo “Alejandro” Gaga uh la la...pede que eu espere, a sala vai enchendo, perco meu vôo para o Porto.Tranquilo, me encaixam no próximo.Chamam um.Continuo a observar todos aqueles “almodovianos” .Chamam dois. Toca Pa panamericano.Chamam 3, 4 e por fim ouço “Lucas”. O sotaque ate então agradável.Sou entrevistado por um policial baixinho, enquanto isso vejo mais 4 brasileiros sendo entrevistados.Apresento carta, passagem de volta,tudo.Ele pede que eu acompanhe. Eu e duas senhoras brasileiras.Penso “vou ser levado ate meu vôo” , mas não...
Entro num elevador.Desço.Sou encaminhado para uma sala de uns 20 metros quadrados, azul.Dois outro policiais um homem e uma mulher, me colocam numa sala e começa a revista. A primeira coisa que vêem é um nariz de palhaço, usado como chaveiro. Riem. São simpáticos, mas mexem em tudo, tudo mesmo.Abrem envelopes com cartas, fotos. Passo pela revista e penso “Agora vou ser liberado”, Mas não...
Minha mochila fica a poder deles, fico apenas com chicletes,um livro, caderno com telefones, uma canta e o terço que a Agna me deu. Um assistente social pergunta se quero comprar “Tarjeta prepago” para ligar.Compro. Pedem que eu espere uma intérprete. Converso com advogado, interprete, policial , não aceitam os documentos portugueses, mas acredito que tudo possa ser resolvido, mas não...
Decidem que tenho que voltar ao Brasil 12:25 do outro dia, isso era por volta do meio dia, começava ai minhas piores 24 horas.
De volta a sala azul, evito me comunicar.Não acredito.Ligo para Alessandra no Brasil e começam as tentativas de sair daquele lugar.Embaixada.Consulado.Advogados espanhóis. Por fim começo a conversar com os brasileiros. Paulo 40 anos, do Rio, indo de feiras com a prima para Bordot, França. Mathias 22 anos, de BH, indo a “passeio” para Lisboa, logo confessa que tava indo para ficar.
Chega o almoço...Uma carne rosa, ate agora não sei de que, batatas, uma salada que já não me lembro e uma maça. Comi.Nao deixaram eu pegar a minha escova de dente.
Alessandra me liga constantemente.Pede calma, mas as coisas vão ficando difíceis. Dentro daquela sala as pessoas andam de um lado ao outro,não se tem para onde correr,ouço reclamações.Algumas nações num espaço pequeno. Marrocos. Venezuela. Senegal. Guatemala. Brasil. E outros que nem se pronunciavam.Os telefones tocam, quem atente tem que se virar com a língua e descobrir para quem era.Minha vez de atender:Maria da Conceição, brasileira, indo visitar a filha ha 16 anos em Madri. Já atende o telefone abalada emocionalmente, minutos depois entra num surto.Grita.Bate o pe. Se descabela e grita mais.Grita muito, uma policial vem e as duas começam uma luta com telefone na mao e mas gritaria e assistente social enfim toma o telefone da mao dela, desliga e a levam para uma sala. Quando volta fica claro que está medicada, volta ainda mais sem rumo.E os telefones continuam a tocar. Sempre na esperança  de ser para mim, ate que  chamam, Willian,um negro, quase 2m, venezuelano, no telefone  é sua vez de chorar. Paulo me diz: “é a coisa da feia. Um negao desse tamanho chorando assim”. Os telefones tocam.Tocam.Agora é para mim “alo”. Alessandra dizendo que o advogado espanhol me ligaria. E mas nada...
Mais gritaria. A porta sempre fechada, estava aberta. Passa um rapaz gritando sendo levado algemado. Após alguns minutos ele é trazido ate a nossa sala azul e encaminhado para uma outra sala muito pequena e ali é trancado. Em pouco minutos já estava ele batendo nas paredes e portas, mais uns minutos de incomodo.
Penso sempre em estar e ficar são.
14h na Espanha. Hora que teoricamente chegaria em Portugal. Estou calmo.Ligo para minha mãe, explico que ainda estou na Espanha, mas sem muitos detalhes.
Mais crises. O senegalês começa a se bater, bater garrafa d’agua na cabeça , bater cabeça na mesa, murmurado coisas.Sofrendo.Gritando. Eu preciso manter a calma.Eu preciso me manter bem.Saio perto  pedindo calma a ele, em português mesmo, mas ele não parava, ninguem pode fazer nada, de repente cai aos prantos, chora, mas chora muito. Que desespero!
Já são quase 18h, começo a sentir necessidade de comer algo.Nao tem nada! Os telefones param de ligar, so podemos receber. A ansiedade aumenta. O telefone 3 toca, é para mim. O advogado espanhol querendo saber como estou, como fui para la, tudo isso em espanhol.Entrei numa loucura de simplesmente entender o que queria ouvir. “Voce ta vindo me buscar?” ele”No te llamo em 30 minutos”.
A fome começa aumentar e incomodar, a mulher da limpeza passa borrifando um produto com cheiro que se não sai do meu nariz talvez essa seja uma das minha maiores lembranças.
A todo tempos as pessoas repetiam que não eram bandidas, marginais e eu rezando para que o advogado resolvesse logo e me tirasse daquela sala que ia diminuindo.Fome. O advogado volta a ligar, pergunta se estou no aeroporto.Explico que sim. Pede calma, e diz que me liga depois.Esperei.Esperei e nada.
Chega  a janta. A estranha carne rosa de novo,uma salada nojenta so reconheci a couve-flor e dois pedaços duros e algo parecido com pizza, comi isso e bebia água para inchar e não sentir mais fome, certamente era minha ultima refeição do dia, e era!
Existiam dois quartos hombres e mujeres no quarto masculino tinha 8 camas e éramos 9 homens, a noite foi chegando e uma policial nariguda abriu mais um quarto.Eu, Mathias e Paulo decidimos que iríamos dormir la. Começava a paranóia de dormir e ser roubado. Outro cara que não se comunicava também foi para esse quarto.Deitei. O telefone tocou.Alessandra.Pergunta se estou bem.Na medida do possível sim.Digo que vou dormir. E assim fiz, 3 horas de sono. É eu não tomei banho! As toalhas eram nojentas, não tive coragem.
Acordei, liguei para Alessandra avisei que tava bem. Ao desligar o telefone ouço uma gritaria no outro quarto masculino.Era o venezuelano tentando impedir o senegalês de se matar...Muitos gritos.Aquele homem pendurado pelo pescoço na beliche por lençóis. Policiais entram, tiram ele totalmente em choque.
Sevem o café, não quero!
O cara que passou a noite trancado, e sendo revistado de 2 em 2 horas, estava ali no meio da gente. O senegalês volta. Ligo para minha mãe “Volta.To te esperando.Te amo! Depois você já para Portugal...” ai não me segurei, chorei.Paulo me lembrava “Segura a onda, você falou disso a noite toda, falta pouco”. Os policiais entram e dizem o sotaque que não suportava mais ouvir “Rio de Janeiro”. Fomos nos despedimos de Willian e seguimos para o avião vôo 6025.Dormi praticamente a viagem inteira.Cheguei ao Rio, 22 de setembro,peguei minha mala. Paulo e Mathias não encontraram suas malas. Mae e tia me esperando, minha tia sempre quebrando o clima “Não falei que seis meses passavam rápidos”
Em casa chorei, chorei como nunca havia chorado antes, mas agora to quase bem, já me encontrei com alguns amigos.E em outubro vou direto para Portugal, mas so em outubro, preciso de um tempo.
Estou meio perdido, sem saber ao certo os dias...Ja começo a me esquecer de algumas coisas, de rostos, mas as vezes ainda tenho flash, sinto o cheiro, fico inquieto.
Desistir? Não quero!
Tenho muito para conhecer. Muito para apresentar.
“E se você acha que eu to derrotado, saiba que ainda estão rolando os dados...”
Lucas F.

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